

Reflexões, pesquisas documentais, etnográficas e educacionais.

Sandro Luis Fernandes
Semana passada estava gravando um CD (coletânea) para crianças (Mumu, Juju e Bepe). Num devaneio lembrei que isto não poderá ser desgravado. Mesmo que seja apagado de alguma forma ou perdido há vários registros virtuais destas canções. Uma lembrança que fica, e como fica, no mundo virtual. Daí pensei que atualmente somos tentados a não guardar nada fisicamente.
Tudo pode ser arquivado virtualmente: canções, imagens, dinheiro, confissões, textos, sensações, amigos... Em princípio acho bom, ecologicamente correto. Mas não fica descartável? Ou não fica sem significado muito facilmente? Nada precisa ser guardado?
Meu filho nem coloca nomes nos CDs que ele grava para ouvir no carro, e eu fazia sequências de músicas em fitas K7 e colocava nome em tudo... Sei lá. Mania de historiador. Mas eu sentia que aquelas canções faziam parte da minha vida tinham que ser guardadas.
Saudosista e materialista! Eu? Acho que sim.
Também me preocupo, infantilmente, qual nossa capacidade de guardar tudo virtualmente?
Sei lá, mas quero confiar na equipe do Google e Microsoft, mas... Ainda são humanos.
Enquanto isto, segue mais um texto, mesmo não sendo muito bom, para ser guardado para a eternidade (pelo menos da humanidade virtual).

(Direção: Lucy Walker, João Jardim, Karen Harley. Brasil/Reino Unido, 2010, 90min.)
Sandro Luis Fernandes
Como pode o lixo ser extraordinário? Esta é a pergunta que me fiz antes de apreciar o filme. Mas a questão é: o lixo não é NADA, são as pessoas que são o que são.
Primeiro pensei. Rio de Janeiro, cidade sede das Olimpíadas de 2016 e cidade importante da copa de 2014, ainda não separa o lixo. Tudo (inclusive o reciclável) vai para o aterro no Jardim Gramacho (Duque de Caxias – RJ). Achei isto descabido para cidade que tem (tinha?) título de CIDADE MARAVILHOSA.
Mas o desenrolar da narrativa do filme me fez o tempo todo pensar em arte. O que é? Como as pessoas se relacionam? Como se produz?
O filme, obra ímpar, destaca elementos do cotidiano e os torna poéticos e significativos. E a obra do artista Vik Muniz construída coletivamente interfere intensa e eticamente no cotidiano de pessoas. As preocupações sociais e éticas valorizam ainda mais a obra que pode ganhar o OSCAR.
Claro está que pensei muito depois do filme. O que faço pela humanidade? A humanidade precisa de mim? Existe humanidade, no sentido de nos sentirmos humanos e uma comunidade? Não sei, mas conscientemente me senti tocado e motivado. Depois de tudo isto, pelo menos eu separo o lixo. E felizmente na minha cidade tem catadores e usina de reciclagem (Usina de valorização de rejeitos de Campo Magro – PR).
Sei que é só um paliativo, mas consumir menos, ser menos individualista e consciente da nossa humanidade são as saídas para melhorar NOSSA VIDA. Mas estas metas não estão nos planos do capitalismo atual.


Sandro Luis Fernandes
Sei que rotina é importante. Se for maçante, mude-a. Mas haverá rotina.
Penso na minha rotina de infância: passar a mão num pão de casa com margarina no fim da tarde e sair correndo jogar futebol na rua ou em terrenos “invadidos” e limpos pela molecada. Tive muitas rotinas. Esperar a secretária, vizinha gostosa (calça justa e salto alto), que passava religiosamente no mesmo horário para delírio da piasada. Dormir após acabar o jornal nacional para agüentar madrugar no dia seguinte. Adolescente: ir de bicicleta (barraforte do meu pai) para escola (2º grau), voltar para casa e ir trabalhar (à tarde).
Muitas rotinas quebradas propositadamente. Deixei de ir à missa. Deixei de brincar na rua quando as vizinhas da minha idade começaram a ficar atraentes. Comprei um carro, larguei a bicicleta.
Mas tem muitas que não lembro quando deixei. Ou quando comecei. Não ando mais de bicicleta com meus filhos. Leio jornal toda manhã durante o café. Quando comecei a tomar café da manhã diariamente? Não levo meu filho para fazer xixi durante a noite (fiz isto durante muitos anos). Alimento o cachorro (e prendo) todas as manhãs. Não acompanho mais novelas. Não jogo mais futebol com os meninos. Preparo aulas.
A nossa rotina fica mais complicada com os filhos mais velhos. A logística muda. As vontades não são impostas, são negociadas. E os tempos juntos? A rotina de almoçar ou jantar. Ver um pouco de TV. Até aprendi a jogar videogame para entrar na rotina dos pimpolhões. Eita mundão.
No fim das contas, sei o significado de tudo isto. O ninho ficando vazio. A idade avançando. A reflexão é maior do que ação. Sei que foi o contrário. Enfim à procura de rotinas.
Prof. Me. Sandro Luis Fernandes
Numa conversa com a professora Ana Elisa (biologia), excelente professora e devotado à educação e saúde, discutíamos a falta de interesse e ética de alguns alunos (fim de ano, preocupados com notas finais e conselho de classe).
A Ana comentou que faltavam valores, deveria resgatar o que havia sido perdido. Daí indaguei: o que perdemos? Nada! Nunca na história desta humanidade tantos direitos foram assegurados, há mais sinceridade. As pessoas podem se separar, por exemplo, e é possível falar a verdade sem perseguição política ou moral, pelo menos em muitos lugares desta humanidade.
Mas então qual é o problema, já que eu não quero resgatados valores como escravidão, submissão feminina, autoritarismo paterno, exploração do proletariado, intolerância religiosa, agressão à fauna e à flora, etc. Mas, e o que foi refletido no passado: as virtudes de Aristóteles, a liberdade do indivíduo no iluminismo. Quando efetivamente foram colocadas em práticas? Queremos resgatar valores ou aplicar idéias de convivência já debatidas exaustivamente e pouco colocadas em prática?
Bem, o problema existe. Temos problemas sociais derivados de problemas éticos de convivência. Então como identificá-lo? Pensa-se só em si. O indivíduo pode tudo, o outro sempre está distante.
O prazer imediato é que se busca incessantemente, acreditamos em propagandas, assistimos muita TV, diversão sempre, jovens sempre... Contatos imediatos e frequentes... Muita tecnologia nos isola e aproxima, contradição dos Tempos Modernos (do Lulu Santos e do Chaplin ao mesmo tempo). Isola do próximo, dificulta contato pessoal? Não é este o problema. A questão mais difícil está no que queremos para nós implicar no que outro também quer... O inferno são os outros... E o paraíso é nosso ensimesmamento. Até quando?
Quando olharmos para o lado e vermos um igual, não o outro qualquer as coisas mudarão. Quem está ao nosso lado: os desvalidos, os ricos, os melhores, os piores, os feios e os bonitos... É o concorrente, e daí? O que isto implica em minha vida? Será possível falarmos em competição saudável. Quem perderá para o outro ganhar? Como perguntam os economistas: é possível almoço grátis?
A liberdade, as virtudes, o conhecimento, a ética, a política, a reflexão, é possível resgatá-las a partir das idéias e não das práticas... E então o que nos resta?