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sábado, 27 de fevereiro de 2016

Os esquecidos no Passeio Público de Curitiba: exercício etnográfico e estudo sobre gentrificação urbana a partir da Vinada Cultural

Os esquecidos no Passeio Público de Curitiba: etnografia e gentrificação a partir da Vinada Cultural

Me. Sandro Luis Fernandes[1]
Resumo

Essa pesquisa abordará os usuários habituais do Passeio Público e a gentrificação da região. A investigação iniciou com a Vinada Cultural[2] promovida pela Gazeta do Povo (Grupo RPCCOM) e por um grupo de artistas locais. Esses artistas motivaram a partir de fevereiro de 2013 a retomada cultural do parque público central da cidade. A ocupação e a Vinada Cultural foram vinculados a projetos da Prefeitura de Curitiba e da Fundação Cultural que têm como objetivo aumentar a circulação de pessoas no centro da cidade com objetivo de lazer[3], promover a cultura e diminuir a criminalidade. Uma questão que preocupa o andamento dessas ações está relacionada ao processo de gentrificação que não considerou os usuários habituais como agentes sociais que promovem cultura e ocupam a região. Apesar da diversidade de agências envolvidas no processo, entre outras, Instituto de Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC) e empresários da região, algumas tem mais ação e dirigem a pauta das transformações do espaço. Nesse sentido a voz dos usuários do parque foi ouvida para entender como se faz a ocupação desse espaço.
  
1.      Introdução
(...) Eu gosto de Cu... ritiba (eu gosto!) 
Eu quero ir fundo, no meio do mundo 
Aqui é o lugar 
Passar pela praça do homem pelado 
O Passeio Público fica ali do lado 
De onde se vê as coisas mais claras 
Dando pipoca às capivaras (...)

Canção de Carlos Careqa, Adriano Sátiro e Oswaldo Rios, 1993
 LP: Os homens são todos iguais.

Essa canção foi meu cartão de recepção da cidade de Curitiba. Sou “curitibano” há 20 anos[4]. E quando cheguei aqui o Passeio Público (P.P.) era um dos lugares que frequentava. Não há mais capivaras no Passeio[5] e tampouco podemos alimentar os animais, mas sem dúvida é um bom lugar para ter ideias mais claras.


Figura 1 - Gazeta do Povo, 16/05/2010
O Passeio Público (P.P.) está localizado no centro de Curitiba. É um parque central da capital do Paraná criado em 1886. Numa área em que, atualmente, cresce o investimento imobiliário. Entre a Av. João Gualberto, Rua Presidente Faria, Rua Pres. Carlos Cavalcanti e Rua Luiz Leão. Uma parte dessa área está localizada a Casa do Estudante Universitário (CEU).
Na parte da Av. João Gualberto há construção de um edifício de grande porte. Também é visível, desse ponto do parque central, o crescimento do shopping Mueller nos últimos anos. Na Pres. Faria apenas um edifício e pontos comerciais que não fixam empresas há algum tempo e também os fundos do Colégio Estadual Tiradentes. Na Pres. Carlos Cavalcanti um Edifício novo (Tour Garden) chama a atenção com apartamentos a venda, uma casa antiga demolida para estacionamento e mais dois prédios (Portal do Passeio e Edifício Passeio), também se destacam pela referência ao nome. E outro edifício relativamente novo é fruto da nova especulação: Elias Waquin. Ainda na Carlos Cavalcanti tem a Casa do Estudante Luterano Universitário, e algumas edificações de pequeno porte. Na Rua Luiz Leão o entorno é dividido entre o clube Círculo Militar e o Colégio Estadual do Paraná (CEP). Há uma pequena parte do P.P. que é separada pela Av. João Gualberto onde está localizado o Memorial Árabe.
Foram seis sábados em que observei o Passeio. Fiz pouca participação, pois privilegiei observar os usuários profissionais do local. Todos os sábados de investigação foram de inverno agradável de Curitiba e isso significa que escolhi dias sem chuva, com sol e frio. Isso possibilitou comparar os sábados sem grandes interferências climáticas. O dia da Vinada foi inspirador quando ao tempo.
Sábado de sol com “céu de brigadeiro” e sem calor. Clima típico curitibano de inverno para passear. Fui ao Passeio Público. Local que às vezes vou comer feijoada ao sábado ou simplesmente cortar caminho por um local agradável. Estava com minha esposa, Rosangela Gonçalves de Oliveira[6]. (Caderno de Campo, 27/04/2013)

À medida que fui dando atenção a detalhes do P.P. e prestando mais atenção ao entorno lugares foram se destacando e chamando atenção do olhar. E nesse sentido vi a necessidade da descrição ficar mais densa. Ao mesmo tempo, notei que seria necessária maior participação para entender o sistema cultural do local, por isso retornei ao local e procurei realizar mais contato com os profissionais que exercem atividades no local.
Desde as primeiras observações eu vinha procurando entender o sistema cultural do parque central. Segundo Geertz (2012), é fundamental entender o sistema cultural de um local com base na interpretação e nos significados desenvolvidos pelos atores sociais observados. Com conversas aleatórias no dia 04/05/2013, uma semana após o Evento da Vinada Cultural, procurei entender o impacto da Vinada no cotidiano dos profissionais (usuários):
Conversei com a vendedora de produtos orgânicos que me disse que sua clientela aumentou muito na semana anterior. A vendedora de pipoca ainda estava empolgada com o movimento surpreendente da Vinada, bem como o vendedor de uma barraquinha de bebidas. E os garçons do restaurante assustados com a grande circulação de uma semana atrás que esperavam ver repetir.
Fui observar a final da corrida de pedalinhos iniciada na Vinada. Tinha público, mas bem menor do que a semana passada. Alguns depoimentos de trabalhadores do passeio apontam para um movimento superior ao dos sábados antes da Vinada. Outros dizem que tudo voltou ao normal.
Apesar de não estar com o movimento surpreendente do sábado anterior havia movimento. Portanto o Passeio continua ocupado.
A empolgação foi e ainda é grande com o sucesso do evento. O vendedor de bebidas disse ter sido avisado e não esperava tanto movimento: aproximadamente 20.000 pessoas na Vinada. Esse vendedor foi procurar informações sobre novo evento, mas só deve ocorrer no fim do ano. Tinha uma ponta de tristeza na notícia.
Um destaque desse sábado “normal” é que os frequentadores e profissionais do passeio público ficaram mais visíveis: prostitutas, usuários de drogas, famílias fotografando, atletas, consumidores de alimentos orgânicos, família com crianças, casais... Algumas pessoas fotografando. (Caderno de Campo, 04/05/2013)

Comecei a entender os usos dos passeios pelas pessoas que trabalham e circulam habitualmente por lá. A feira de orgânicos, por exemplo, foi crescendo como objeto de observação em relação à sua importância no sábado. No dia 01/06/2013 dei mais destaque ao cotidiano dos consumidores e compradores da Feira:
Dei uma volta de moto ao redor do local. Ao contornar o passeio verifiquei que havia um bom movimento. Considerando que era meio do feriado de Corpus Christi.


Estacionei onde é permitido aos sábados. Quase em frente ao módulo policial. Consegui por estar de moto, pois se estivesse de carro seria difícil. Somente em estacionamento pago haveria vagas, pois ao redor do Passeio há poucas vagas na rua para estacionar. Apenas uma faixa de 100 metros aproximadamente há estacionamento na rua regulamentado.





Figura 2 - Feira de orgânicos na pista de "fora"



Cheguei às 10h30. Um grande movimento na feira de orgânicos. São 14 barracas de orgânico padronizadas. 2 carros vendendo produtos orgânicos, sendo 1 vendendo derivados de leite e outro carne. Tem também três trailers junto às barracas. As barracas de produtos orgânicos são espaçadas, diferente de outras feiras de rua ou mesmo da feira de artesanato de domingo no Largo da Ordem. Há espaço para circulação ao redor da barraca, que tem estrutura de bambu, cobertura plástica verde e produtos dentro e por fora ao redor da mesma.
O movimento na compra de produtos orgânicos chama a atenção. Movimento grande de pessoas com carrinhos para compras, bem como sacolas retornáveis, mas também grande uso de sacolas plásticas com logomarca da própria feira. Pensaria em contradição ou apenas compras sem pretensões políticas.
Considerando a feira, que ocupa pequena parte lateral do Passeio. Aproximadamente uns 50 metros da passarela na esquina das Ruas Presidente Faria e Carlos Cavalcanti. Ela não ocupa internamente. Desde 1993, quando começou no Passeio com 08 barracas, a feira atrai pessoas que não são necessariamente frequentadores do Passeio, mas consumidores de produtos orgânicos. Nesse momento cabe uma questão fundamental: qual o dia de maior movimento semanal do Passeio? Pergunta a ser feita aos pipoqueiros.
Ainda sobre o local dos orgânicos: foi só nesse dia que percebi que havia barracas de artesanato na mesma via do passeio em que se encontra a Feira de Produtos Orgânicos. Estão separadas por um espaço de uns 20 metros. São também padronizadas, com armação de metal e cobertura branca. Mesmo modelo utilizado na Feira do Largo. São dispostas uma ao lado da outra sem espaços. Enquanto que na feira de orgânicos tem dois ou três atendentes na barraca, na de produtos artesanais apenas uma pessoa por barraca. São 10 barracas[7]. A feira de artesanatos está ali há 4 anos.
Os frequentadores desse hábito eram alguns poucos ciclistas de passagem, também poucos corredores. Alguns fazendo exercícios leves: caminhada ou exercícios nos aparelhos de ginástica ao ar livre. Alguns fotógrafos de aves. Casais de namorando passeando lentamente e também fotografando. Moradores de rua, pedestres cortando caminho, crianças brincando com os pais no parque e algumas prostitutas. No mesmo local dos últimos sábados “os bêbados ou drogados”.
O Passeio de muita calma nessa manhã de sábado. O local continua ocupado. Seus frequentadores habituais. Compradores de orgânico, homens jogando baralho, poucas mesas ocupadas no restaurante (cedo para a feijoada), dois pedalinhos sendo usados por “turistas”, mais fotos na ponta de pedra, na frente dos pássaros e comedores de pipoca. Saí do local às 11h. (Caderno de Campo, 01/06/2013)

Uma feirante, em entrevista no dia 06/07/2013, chamou minha atenção pela qualidade da análise em relação à ideia de ocupação pelas agências que interferem no P.P. e na região. Ela disse que os organizadores do evento poderiam ter levado em conta esse viés sustentável do sábado no Passeio, que é a feira, para desenvolver uma atividade com mais raiz para caracterizar o Passeio como local de sustentabilidade ou ecológico. Nesse sentido, do jeito que foi organizado, o evento ficou deslocado do sistema cultural do local.
Ao procurar entender o sistema cultural do Passeio tornou-se importante identificar os usuários de sábado do Passeio Público de Curitiba e o sábado foi escolhido por ser o dia do evento que desencadeou essa investigação: a Vinada Cultural. Essa atividade consistiu em venda de cachorros-quentes por barracas tradicionais de várias regiões da grande Curitiba no dia 27/04/2013. O objetivo era chamar a atenção do público para o P.P., bem como ocupar o lugar com atividades culturais e com um público não acostumado a frequentá-lo. É importante destacar que o nome do evento se refere ao principal ingrediente do cachorro-quente que é a vina (salsicha) e também a outro evento, anual, a Virada Cultural.
Tratava-se de saudosismo da época de uso do P.P. por grande número de curitibanos que buscavam lazer[8]. Esse olhar saudosista foi conduzido por algumas agências da cidade: amigos do P.P. (grupo de artistas locais que marcam encontros aos sábados no parque central de Curitiba para retomada do local pelos artistas - isso ocorre desde fevereiro de 2013. O grupo mantém página na rede social Facebook: O passeio público é nosso!); Prefeitura e Fundação Cultural de Curitiba; e Jornal Gazeta do Povo do GRPCCOM.
Curioso a respeito do evento fui ver a Vinada Cultural. E foi no evento que pensei no problema a investigar: quem são os usuários do P.P.? Por que eles não são considerados ou declarados, pelos agentes citados, como ocupantes do parque?
Sou usuário do parque, além de às vezes cortar caminho pelo logradouro, pois trabalho perto dali, também passeio lá. O P.P. me atrai pela possibilidade de observar e fotografar aves livres que aparecem por lá. E também para comer feijoada aos sábados no Restaurante do Passeio.
Em cinco sábados, além do dia da Vinada, fiz posteriores observação do parque. Não ocorreu pesquisa sistematizada dos usuários antes disso. A estratégia de investigação, já descrita parcialmente, foi a observação participante.
As categorias dos frequentadores do P.P. são os seguintes: atletas[9] (ciclistas, corredores, praticantes de caminhada e ginástica), profissionais[10] (garçons, pipoqueiros, vendedores de bebidas, fotógrafos, prostitutas[11], atendente do pedalinho, policiais, feirantes e cuidadores dos animais.), jogadores de dama, dominó e baralho, bem como visitantes e clientes de serviços do local: casais, consumidores de produtos orgânicos[12], famílias[13], clientes do restaurante e estudantes[14].
Com base em entrevistas o objetivo foi conseguir entender como eles estão vinculados ao parque. Além disso, compreender suas ideias sobre a Vinada Cultural, bem como a relevância do evento para o cotidiano dos usuários e do P.P. Principalmente se houve impacto no P.P. após o evento. Nesse sentido é importante frisar que foi a rotina de um dia da semana o objeto da pesquisa.
E pensar nesse problema leva a reflexões sobre a gentrificação urbana. Ou seja, como as agências oficiais do estado e a imprensa estimulam a requalificação urbana dos centros das cidades. Alves (2011) discutiu esse problema destacando pontos relativos ao processo na cidade de São Paulo. A reflexão teórica a respeito desse processo problematiza os benefícios da gentrificação. Tal discussão foi consenso enquanto avanço social e planejamento urbano, mas atualmente alguns autores, Alves e Wacquant, por exemplo, discutem seus efeitos contraditórios.
Esse processo ocorre em São Paulo, por exemplo, desde os anos 1980 (Alves, 2011). E em Curitiba, desde 1970 (Souza, 2001 e Oliveira, 2000). Decorrente do planejamento da cidade e refletindo sobre novos espaços de sociabilização, empresários e Prefeitura local voltaram seu olhar para a gentrificação do centro para conseguir melhorar as condições de circulação, lazer e comércio.
O ocorrido na capital paulista tem similaridades ao ocorrido na capital paranaense. Em relação ao centro de Curitiba diversas ações corroboram com a do P.P. Iniciativas como a instalação de câmeras de segurança monitoradas pela Polícia Militar; pintura dos prédios históricos da Praça Generoso Marques em convênio com a empresa de Tintas Coral; revitalização do Paço da Liberdade pelo SESC; readequação das Ruas Riachuelo e São Francisco pela Prefeitura; além disso, os projetos culturais do Cine Passeio, Cine Luz, Virada Cultural e Corrente Cultural, todos capitaneados pela Fundação Cultural[15]
O P.P. ganhou destaque nesse processo devido ao seu “abandono” pelos grupos sociais que o criaram (BAHLS, 1998) e também pelos ex-usuários saudosos, que o freqüentaram para andar de pedalinhos, comer feijoada Lá no Pasquale e assistir espetáculos artísticos no palco flutuante. Esses eventos nos idos de 1970 até meados dos anos 1990.

2.      Gentrificação urbana e o Passeio Público de Curitiba

Os estudos sobre gentrificação urbana atuais estão revendo os processos de revitalização ou requalificação de zonas das grandes cidades. No Brasil com destaque para São Paulo, desde o governo de Jânio Quadros (gestão 1986 – 1989), houve principalmente em relação ao centro da cidade tentativas de acabar com a criminalidade/violência e tornar o lugar vinculado à produção cultural paulistana (ALVES, 2011). Essa pesquisadora argumenta que o processo de gentrificação não tem alcançado o objetivo pretendido e ainda exclui cidadãos habituais usuários dos equipamentos públicos que recebem intervenção.
O estudo dessa autora aponta para contrastes nessa requalificação. Destacando a região central de São Paulo a autora remete à gentrificação promovida pelo estado e iniciativa privada estar mais preocupada com a valorização imobiliária do espaço. A autora apresenta estudos sobre como o processo de valorização dos imóveis inflacionou os preços no centro de São Paulo nos anos de 1950 e 1960 criando novas oportunidades em regiões mais periféricas. Isso gerou em médio prazo desvalorização dos imóveis centrais:
“Como se trata de um processo, as áreas ditas decadentes e deterioradas só contêm esses adjetivos porque outrora foram justamente o seu oposto: representavam o auge, a modernização, a pulsão da cidade.” (ALVES, 2011).

Esse processo é comum a muitas cidades, claro que por motivos diferentes. No Brasil destaque para Salvador, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Curitiba. Bem como Londres e Nova Iorque. Curitiba, por sua vez, teve mudanças significativas no centro que são em menor proporção similares a São Paulo. O caso do Passeio Público que será analisado amiúde passou, segundo as agências intervencionistas, de lugar de encontro privilegiado de parte da sociedade curitibana até os anos 1990 para local de prostituição e de poucos frequentadores dos seus equipamentos urbanos. Na época de maior movimento havia parque de diversão do outro lado da Av. João Gualberto[16], Cine Morgenau[17] em frente, shows de grande porte no vizinho Palácio de Cristal do Círculo Militar[18], bem como apresentações artísticas no P.P. (coreto e depois palco flutuante) e no Teatro Guaíra que fica a duas quadras do P.P. O Passeio Público foi ao poucos sofrendo mudança de público Por diversos motivos. Por exemplo, a falta de estacionamento ao seu redor, mudança do zoológico para o bairro Boqueirão[19], retirada do parque de diversões e criação do Shopping Mueller[20]. Além disso, o cresimento imobiliário na região é grande. Em frente ao colégio estadual. Ao lado do P.P. tem cinco edifícios, dois construídos nos últimos 10 anos, construídos para consumo da classe média alta.
Na tentativa de gentrificação pela prefeitura e agentes imobiliários de Curitiba há similaridade com o ocorrido em São Paulo. A revalorização do centro de Curitiba em busca de novos investimentos pelas incorporadoras imobiliárias lembra o que aconteceu em São Paulo, mas tem uma diferença significativa: enquanto lá ocorre o incremento cultural aqui ocorrem investimentos culturais e também a valorização do espaço central para construção de novos edifícios de residências e conjuntos comerciais:
“Em um primeiro momento (anos 1980), os documentos oficiais apontavam para a necessidade de "revitalização" da área central. Revitalizar implicava buscar uma nova vida para o centro, como se a existente não fosse desejável. O que se procurava era, nos discursos oficiais, atrair novamente as classes mais abastadas que haviam se afastado da área central. Se não fosse possível pela moradia, que voltassem pela cultura, pelo patrimônio cultural existente, mas para isso muitas mudanças estruturais deveriam ser feitas de modo a atrair investimentos (tanto nacionais como internacionais, privados e/ou públicos).” (ALVES, 2011)

Isso aponta para um conflito de interesses e desconsideração dos atores sociais que atualmente frequentam o parque central de Curitiba. Os agentes, prefeitura e empresários, se não conseguem convencer pelo maior valorização imobiliária procuram o apelo de renovação cultural. Esse processo é destaque em Curitiba pelas ações já citadas de revitalização de áreas próximas ao Passeio (ruas, eventos e edificações). Portanto, envolver cultura, cidade e empresa é a base da transformação dos espaços centrais que deixam invisíveis os atores sociais que frequentam o P.P.
Wacquant (2010) explicita a invisibilidade do proletariado urbano, que atualmente não é necessariamente oriundo do emprego na indústria. Esse novo trabalhador foi para o centro em busca de outros tipos de ocupação, opções de lazer e vida mais barata. Segundo esse autor esse sujeito não é visto nem pelos pesquisadores que acham a gentrificação uma boa alternativa de revitalização de espaços das cidades. O trabalho desproletarizado e em empregos informais, inclusive no centro da cidade, não é percebido pelos agentes e pesquisadores:
“Essa obliteração literal e figurada do proletariado na cidade é reforçada pela heteronomia crescente da pesquisa urbana, na medida em que ela se torna mais estreitamente ligada aos interesses e perspectivas dos governantes da cidade, e correspondentemente desligada das agendas teóricas autodefinidas e autopropelidas. E, por sua vez, ambas as tendências revelam, confirmam e incitam o papel em transformação do Estado, de provedor de assistência social para populações de renda mais baixa a fornecedor de serviços e amenidades empresariais para urbanitas de classe média e alta principalmente (...)” (WACQUANT, 2010)

O estado passa de agente criador de assistência para regulador de espaços sociais nas cidades com objetivo de ocupação e consumo capitalistas. Segundo Wacquant, a presença e a discussão da ocupação requalificada passa pela ideia de minorias, criminalidade e segregação, mas não considera o conflito de classes na ocupação dos espaços urbanos centrais.
Os autores apontam para interesses conflitantes do capital com a organização de alguns pontos das grandes cidades. Há discursos de agentes que apontam para a reformulação do Passeio, mas tratam as mudanças como invisíveis e não consideram como agentes os usuários do P.P. O capital da especulação imobiliária que vai ganhando destaque nos últimos 20 anos, desde a mudança dos animais do Zoo até a venda de terrenos no entorno para construção de grandes edifícios. Passando por modificações urbanísticas que não consideraram peculiaridades do parque[21].

3.      Vinada cultural: agência de destaque

A Vinada foi um evento que envolveu agências interessadas na ocupação do Passeio. Essa ocupação foi destacada inclusive pelo prefeito da cidade em seu discurso. Chefes de cozinha, capitaneados por artistas locais, deram destaque aos cachorros quentes tradicionais curitibanos. O destaque desse evento foi a Gazeta do Povo e a RPC TV, ambas vinculadas ao GRUPO RPCCOM. Teve transmissão ao vivo para todo o Paraná de flashs do evento. Bem como anúncios e banners destacando a presença desses veículos de comunicação. A campanha da Gazeta que tinha começado antes do evento, também continuou após o mesmo:
Gazeta do Povo – Resumo das matérias sobre o Passeio Público

Autor
Data
Título
Comentário
1.
Sandro Moser
02/09/2012

Lugares que amamos


2.
Luiz Claudio de Oliveira
20/02/2013

Quadra Cultural e Passeio Público – as polêmicas de Curitiba


3.
Cristiano Castilho
24/02/2013

No coração da cidade, mas longe dos olhos

Início da campanha OCUPE O PASSEIO
4.
Cid Destefani
24/02/2013

Para ressurgir do limbo


5.
GAzeta do povo – on-line

OCUPE O PASSEIO

Campanha de atrações
6.
Osny Tavares
26/02/2013
Mobilização pró-Passeio chega a órgãos públicos

7.
GAZETA DO POVO
27/02/2013
Audiência pública discute ocupação do Passeio Público

8.
Fernanda Trisotto
28/02/2013

Grupo debate ações públicas para o Passeio


9.
Fernanda Trisotto
02/03/2013

Evento no Passeio oferece jogos e teatro às crianças


10.
Pollianna Milan
02/03/2013

O parque da magia


11.
Pedro Brodbeck
02/03/2013
Atividades para as crianças movimentam o Passeio Público neste sábado

12.
Raphael Marchiori
15/03/2013

O que é que o Passeio Público tem?

Mapa com atrações do passeio e destaque em fotos.
13
Cristiano Castilho
25/03/2013

Por um Passeio Público do futuro

Professor UTFPR – ilustração de dois projetos para o passeio
14.
Cristiano Castilho
10/04/2013

Pássaros fazem ponte aérea com escala no Passeio Público


15.
Gilson Garrett Jr.
21/04/2013
Um parque e muitas vinas
Início da campanha da VINADA CULTURAL
16.
Cristiano Castilho
24/04/2013
Marinheiro de primeira viagem

17.
Gilson Garrett Jr.
26/04/2013
Vinas saboreadas com música e arte

18.
Gilson Garrett Jr.
27/04/2013
Hoje é dia dos dogueiros no Passeio Público
Dia da VINADA CULTURA.
19.
Marina Fabri
28/04/2013
Vinada Cultural coloca o Passeio Público novamente no roteiro dos curitibanos

20.
Da Redação
02/05/2013
Passeio Público chega aos 127 anos com revitalização

21.
Raphael Marchiori
07/05/2013
Passeio é popular, mas pouco visitado[22]
Infográfico do Instituto PARANÁ PESQUISAS.
22.
Adriana Czelusniak
13/05/2013
A dois passos do Passeio Público

23.
Cristiano Castilho
14/05/2013
Novas ideias para um outro Passeio
Professor da UTFPR projeto de alunos para intervenção no passeio.
24.
Felippe Anibal
22/05/2013
Chegar de carro no Passeio é dor de cabeça na certa
Alternativas de mobilidade – ônibus e bicicleta.
25.
Cid Destefani
26/05/2013
Há mais de cem anos...
Descaso com monumentos públicos. Inclusive do Passeio.
26.
Alexandre Costa Nascimento
07/07/2013
Projeto é ousado, mas está parado.
Ippuc quer transformar o Passeio Público em um mini-Central Park curitibano.

De 2008 a 2012 as matérias desse jornal faziam referência à questão imobiliária do entrono do P.P., bem como à necessidade de limpeza dos lagos artificiais[23]. Inclusive há citação de um projeto de restauração, dos lagos e das gaiolas dos animais. Mas esse ano a pauta sobre o Passeio mudou. O jornalista mais envolvido com a temática foi Cristiano Castilho, pois foi o ponto focal do projeto dentro da redação/jornalismo. Ele assinou cinco matérias publicadas na Gazeta do Povo. Além disso, das 26 reportagens apresentadas, a maioria destaca o papel histórico do P.P. bem como a necessidade de requalificação do mesmo. O jornal até o momento da escrita desse artigo está realizando campanha institucional intitulada OCUPE O PASSEIO.
Em conversa com o jornalista à frente da campanha, ele afirmou que o Passeio é um preocupação recorrente do jornal. E o jornal promoveu a Vinada com intenção de provocar mudanças no Passeio. Inclusive a pesquisa publicada no jornal no dia 07/05/2013 será refeita até o fim do ano para efeito de comparação, bem como tentar verificar os efeitos da campanha do jornal no local. Segundo a pesquisa o maior problema no local é a falta de segurança[24], apesar de não haver registro de ocorrências policiais no local. Isso denota que há incoerência ou dificuldade de compreensão do espaço por parte dos curitibanos, inclusive preconceito.
O jornalista, que fez muitas visitas e entrevistas no P.P., apresentou uma ideia interessante para pensar os problemas do parque: “Há o passeio de dentro e o passeio de fora.” O passeio de fora é o local que há maior circulação de pessoas, inclusive onde os moradores da região fazer atividades físicas, local da ciclovia e da Feira de Orgânicos. E o passeio de dentro é o local esquecido por boa parte da população curitibana. Para a maioria que conhece o local, segundo Castilho, o passeio é um local de passagem e raramente destino final.

4.      Usuários do Passeio Público independentes da Vinada

Tratei como usuário os trabalhadores do parque. Não entrevistei os frequentadores, assíduos ou não. Observei os frequentadores e conversei com alguns profissionais que desempenham sua função dentro do parque.
Há no discurso da maioria, com exceção dos comerciantes da feira de orgânicos, saudades da época de maior frequência ao P.P.: “O passeio já foi melhor!”. E “Mais famílias freqüentavam.[25]”. São duas afirmações recorrentes.
Não foi realizado estudos com os usuários do parque para produção da Vinada. Foram avisados, mas não ajudaram na produção. Também não foi dada devolutiva, tampouco marcada nova atividade cultural no local. Após a promoção da Vinada a Gazeta do Povo fez vários artigos promovendo ou problematizando o P.P. e isso tem provocado debates, mas nenhuma ação efetiva. Os vizinhos ao parque demonstram interesse, mas, os únicos que fazem intervenção são os empresários que tem interesse em incrementar movimento ou especulação imobiliária e os estudantes da Casa do Estudante Luterano Universitário (CELU). Trata-se do grupo organizado de alguns estudantes moradores da CELU que realizam há 30 anos A Hora do Recreio[26].
Além dessas movimentações que procuram interferir sistematicamente no local, apenas a organização dos feirantes pode ser comparada. Apesar de que, nesse último caso, a organização busca melhoria visando principalmente à feira. E pelo discurso das pessoas não há união dos diversos interessados no parque.
Minha última visita ao P.P. ocorreu dia 06/07/2012. Nesse dia defini que conversaria apenas com alguns profissionais para delimitar um mapa desses usuários.
A minha abordagem foi com os profissionais presentes no sábado pela manhã. Os feirantes, por exemplo, chegam às 4 horas da manhã e preparam a feira para receber os consumidores às 7 horas. Os pipoqueiros às 10h começaram a instalar seus carrinhos. O policial militar do módulo chegou de madrugada. Dos quiosques (três no total) só tinha um aberto. Tinham três garis limpando. Algumas prostitutas no interior do parque.
Nesse momento defini minha abordagem: perguntas diferentes para usuários diferentes. Na pista externa do passeio defronte a Rua Carlos Cavalcanti está o módulo policial. O cabo que trabalha ali faz muito tempo[27] disse que acha que a Vinada promoveu mais movimento. Ele mesmo após a Vinada levou seus sobrinhos ao P.P. e eles querem voltar. Os dias mais movimentados são os sábados, domingos e feriados. Segundo o cabo: “Quando tem movimento de pessoas de bem no parque não tem gente ruim.” A feira ajuda muito nisso segundo esse servidor público. Esse profissional disse que não há criminalidade no parque. Às vezes no entorno, mas dentro do P.P. não. A guarda municipal também faz ronda no local. As prostitutas e os mendigos atrapalham o movimento de famílias, mas eles apenas incomodam e não cometem crimes, segundo o P.M.
Depois disso, conversei com um pipoqueiro que trabalha no parque há 30 anos. Disse que o maior movimento é no domingo. E disse que há melhor movimento depois da Vinada. E disse que nunca vendeu tanta pipoca num dia só quanto na Vinada. Atualmente o melhor ponto de venda de pipoca é próximo ao parquinho infantil. Antigamente era perto da ponte entre as Ilhas das Garças e da Ilusão, onde ocorreu a entrevista.
Conversei também com um ex-lambe-lambe. Trabalha há 51 anos no P.P. começou aos 16 anos com seu pai. Herdou o local mas encerrou as atividades de fotografia em 1995.  Seu quiosque em frente fica ao terrário e atualmente vende refrigerantes, sucos e sorvetes. Segundo esse vendedor o movimento caiu nos últimos três ou quatro anos devido aos pedintes[28] que incomodam as famílias. Antes as famílias dos edifícios ao redor vinham passear no parque. Esse comerciante ainda disse que o movimento é maior no fim de semana.
Finalmente um dos garis[29] declarou que o parque tem pontos em que as pessoas sujam mais. Inclusive fazendo necessidades fisiológicas em lugares inadequados. E afirmou que o movimento maior é nos fins de semana.
Nesse dia ainda observei algumas crianças no parquinho, um patinador na pista ao lado do parquinho, algumas pessoas olhando os animais em cativeiro, casais fotografando, atletas se exercitando no “estica-véio”[30] e na pista de caminhada/corrida, ciclistas indo a feira, ou passando pela ciclovia, além dos consumidores das feiras de orgânico e artesanato.
Fui embora às 10h30. Passei ao redor do parque às 15h40 e tinha movimento maior no parquinho infantil. Bem como as mesas que estavam vazias pela manhã, onde acontecem jogos de cartas, dominó e damas, estavam lotadas de homens nesse horário. O Restaurante estava com as mesas externas ocupadas e as feiras tinham acabado.
A observação foi encerrada nesse dia. Mas a etnografia pode ser mais aprofundada. Para aproximar de usuários e frequentadores deve haver maior participação do cotidiano do P.P. Uma possibilidade seria realizar atividades mais regulares, de compra, exercícios físicos ou apenas passeio em outros dias da semana. (Caderno de Campo, 06/07/2013)

Mapa dos usuários do Parque:



Figura 3 - Gazeta do Povo, 15/03/2013


1.             Portal
2.             Viveiros
3.             Viveiros
4.             Pistas de caminhada
5.             Módulo da Polícia Militar
6.             Pedalinhos
7.             Recreio do Garoto (atual Restaurante do Passeio)
8.             Aquário
9.             Terrário
10.         Bicicletário
11.         Cerca que contorna o parque (de cimento imitando troncos)
12.         Busto de Emiliano Perneta
13.         Busto de Francisco Fontana
14.         Ilhas (dos Macacos, das Garças, dos Amores e da Ilusão)
15.         Parquinho
16.         Carvalho
17.         Palco flutuante
18.         Ponte Pênsil
19.         Cascata
20.         Academia ao ar livre


A.     No caminho entre as ilhas dos Macacos, da Ilusão e das Garças há alguns bancos que são usados por prostitutas. Essas profissionais também usam alguns bancos entre o viveiro (3) e o restaurante (7). Também trabalham do lado de fora do P.P. na Rua Carlos Cavalcanti.
B.     Os mendigos (sem-teto) usuário de drogas ficam próximos ao terrário. Na parte interna do parque atrás da Ilha dos Amores.
C.     Há doze pipoqueiros no parque que fazem rodízio entre doze pontos diferentes.

5.      Considerações
“A prostituta, o traficante e o morador de rua ainda estão ali. Basta dar uma volta pelo Passeio Público, no Centro de Curitiba, para perceber que, mesmo após o movimento que propôs iniciativas para revitalizar o parque mais antigo da cidade, o espaço continua sendo ocupado pelos mesmos frequentadores. Passados seis meses e algumas reuniões, audiências públicas e eventos esporádicos, pouco aconteceu para mudar o cenário.” (Alexandre Costa Nascimento. Gazeta do Povo, 07/07/2013)


A intenção inicial ao observar a Vinada era ver o passeio público com uma atividade diferente e artística. Como a abordagem foi etnográfica eu estava aberto para surpresas que a investigação poderia apresentar. E isso ocorreu. O P.P. é um local de múltiplos interesses e de muitas possibilidades de abordagem. E concordo com o jornalista CASTILHO quando questiona se é necessário mudar o Passeio. O mesmo também tem dúvidas sobre a campanha OCUPE O PASSEIO. Será que não seria melhor USE O PASSEIO ou VISITE O PASSEIO?
Diante das demandas sociais provocadas por diversas agências é necessário refletir sobre o mesmo, e quanto mais olhares se dirigirem ao P.P. mais pluralidade estará presente na reflexão sobre esse espaço público. E consequentemente isso pode gerar sentimento de pertencimento, o que mudaria para melhor a relação das pessoas que não vão ao local por preconceito ou desconhecimento.
O olhar inicial dessa pesquisa era sobre a Vinada Cultural promovida pelo jornal Gazeta do Povo. No dia do evento outra coisa chamou a atenção. O espaço artístico não atraiu as pessoas, pois foram os cachorros-quentes que atraíram a população[31]. As atividades dessa característica, música, stand-up e teatro, por exemplo, além de não ter espaço próprio na estrutura do P.P. tiveram pouco investimento de suporte para o evento.
Finalmente depois de circular pelo P.P. e arredores chamaram a atenção os novos prédios sendo construídos na região. Foi isso que ampliou a problemática relacionando-a ao ocorrido já há algum tempo na região. O que é chamada de revitalização pelas agências ou gentrificação. Além disso, há formas de tratamento diferentes pelos usuários do Passeio de dentro e do Passeio de fora (CASTILHO).

Figura 4 - Investimento imobiliários
Em frente ao P.P. na Rua Carlos Cavalcanti.
O velho (apenas fachada não demolida) próximo ao novo (Tour Garden)
      




  Figura 5 - Investimentos imobiliários
A resistência ao avanço imobiliário: livraria evangélica, lanchonete e Costelão do Passeio.
E no local onde está sendo construído o edifício funcionava o Parque Alvorada e o Cine Morgenau.

O processo de gentrificação da região envolve agências com objetivos semelhantes. O discurso geral tem como objetivo a requalificação do centro, seja por meio da promoção cultural, diminuição da criminalidade ou revalorização imobiliária. Portanto esse discurso aproxima as agências, pois trata da revitalização do centro.
Nesse sentido podemos falar do uso de uma agência por outra. Ou seja, o discurso em segundo plano não é semelhante. A especulação imobiliária e o shopping Mueller, por exemplo, se mostraram interessadas no comércio. Na Vinada, com anúncios e promoções, essas agências demonstraram seu interesse na gentrificação da região destacando a divisão de classes e interessadas na venda de seus produtos. Como não há organização entre os diversos usuários profissionais do parque. Cada um trata o seu problema sem relações de organização coletiva. A atuação de agências externas ao P.P. tem mais facilidade de atuação devido à falta de engajamento em relação aos problemas comuns. Os profissionais foram apenas avisados que ocorreria a Vinada e não consultados sobre possibilidades ou alternativas.
O evento, Vinada Cultural, teve destaque na mídia, inclusive internet, que além das mídias mobilizou muitas pessoas pelas redes sociais. Mas uma questão não foi abordada sistematicamente pela mídia: o fato da ocupação do parque acontecer a muito tempo. Até o prefeito Gustavo Fruet declarou após um lançamento de livro ocorrido no dia da Vinada: “A Vinada era uma boa invasão do Passeio.”
Os discursos, as práticas sociais inseridas nos sistemas culturais precisam ser interpretados. Para isso precisam ser ouvidos. Só a partir disso teremos olhares sobre a diversidade dos frequentadores do P.P e também entenderemos como se desenha o futuro do parque central curitibano. Mas não só por quem gostaria de prever o movimento ou ocupar de forma comercial ou culturalmente correta. Devemos envolver todos os interessados no local. Profissionais e frequentadores devem falar sobre seu espaço dentro da cidade. Mas envolver esses dois últimos é difícil. Os profissionais não me parecem organizados e tampouco interessados em mobilização, visto que também tive a impressão de acomodação no local, que de alguma forma dá retorno[32]. E os frequentadores será que tem sentimento de pertencimento ao local ou é apenas um lugar para uso visando caminhada ou corrida, ou apenas encurtar caminhos.

6.      Lista de Figuras

Figura 1
Mapa do Passeio Público, Gazeta do Povo. 16/05/2010.

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p. 03
Figura 2
Caderno de Campo, dia 01/06/2013, foto do autor.
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p. 05
Figura 3
Mapa do Passeio Público com atrações e alguns profissionais, adaptado da Gazeta do Povo, 15/03/2013.


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p. 16
Figura 4
Caderno de Campo, dia 02/07/2013, foto do autor.
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p. 18
Figura 5
Caderno de Campo, dia 02/07/2013, foto do autor.
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p. 18

7.      Referências

ALVES, Glória da Anunciação. A requalificação do centro de São Paulo. In: Estudos Avançados. Vol.25, nº 71, São Paulo, Janeiro/Abril, 2011.

BAHLS, Aparecida Vaz da Silva. O verde na Metrópole: a evolução das praças e jardins em Curitiba. 1v. 195p. Dissertação de Mestrado. Curitiba: UFPR, 1998.

CASTILHO, Cristiano. Entrevista. Curitiba, 18/07/2013.

GAZETA DO POVO. Ocupe o Passeio. Curitiba. Diversas datas (p. 12 e 13).

GEERTZ, Clifford. O saber local: novos ensaios em antropologia interpretativa. Petrópolis (RJ): Vozes, 2012.

OLIVEIRA, Dennison. Curitiba e o mito da cidade modelo. Curitiba: UFPR, 2000.

SOUZA, Nelson Rosário. Planejamento urbano em Curitiba: saber técnico, classificação dos citadinos e partilha da cidade. In: Revista de Sociologia Política. Nº 16, Curitiba, Junho/2001.

WACQUANT Loïc. Ressituando a gentrificação: a classe popular, a ciência e o estado na pesquisa urbana recente. In: Caderno CRH. Vol.23, nº 58, Salvador Abril/2010.






[1] Professor de História da Rede Municipal de Ensino, Professor de Sociologia do Curso Dom Bosco e das Faculdades Santa Cruz, Mestre em Educação, Licenciado em História e Acadêmico de Ciências Sociais (UFPR).
[2] Evento gastronômico que envolveu alguns chefes de cozinha e algumas barracas de cachorro quente de rua que o nome faz trocadilho com a Virada Cultural que ocorre anualmente.
[3] Ocupação da região central contra a criminalidade: projeto revitalização da Rua Riachuelo, restauração do Paço da Liberdade, reforma da Praça Tiradentes, criação do Cinema Passeio, pintura do Largo da Ordem, etc.
[4] Nasci e fiquei até os 20 anos em Guarapuava, morei em Maringá dois anos.
[5] Há capivaras soltas nos parques de Curitiba. Nos parques Tingui, Barigui e São Lourenço esses mamíferos são facilmente encontrados.
[6] Professora de artes e doutoranda em Tecnologia e Sociedade (UTFPR). A presença dela ajudou a orientar algumas decisões de abordagem e encaminhamento, bem como compartilhei algumas decisões de investigação.
[7] Dia 06/07/2013 havia 18 barracas de artesanato.
[8] No dia 01/06/2013 após passar à tarde pelo P.P. passei também pelo Barigui, outro parque curitibano, porém muito mais freqüentado pela classe média da cidade. Estava com um público maior do que o do P.P. Além de ser um parque maior com mais espaço para caminhada e lazer, tem estacionamento gratuito para muitos carros.
[9] Ciclistas e corredores se destacam pelas roupas e acessórios, além de mostrar empenho na atividade desportiva, se destacam pela concentração. Há também ciclistas que vão passear, com crianças ou não, tem atitude mais contemplativa e não usam só a ciclovia.
[10] Garçons, pipoqueiros, garis e policiais são identificados pelo uniforme.
[11] Quanto às prostitutas eu suponho que elas sejam identificadas pela atitude dentro do parque. Parecem ter, em sua maioria, mais que 30 anos e muito maquiadas. Não identifiquei garotos de programas ou michês. Sentam sozinhas nos bancos e encaram os homens. Se houver retorno por parte do cidadão as mesmas oferecem seus serviços.
[12] Os clientes da feira trazem, normalmente, carrinhos de compras e sacolas retornáveis.
[13] As famílias e casais têm atitude turística: fotografia e contemplação de atrações do P.P. No caso de famílias, de vários tipos de arranjo, também frequentam os pontos de brincadeira: parquinho, pista de patins e pedalinho.
[14] O P.P. fica ao lado de dois colégios públicos: Tiradentes e Colégio Estadual do Paraná (CEP). O CEP é um dos maiores e mais tradicionais colégios de Curitiba.
[15] Fundação Cultural é uma instituição de fomento cultural ligada à Prefeitura Municipal de Curitiba que tem o status de Secretaria da Cultura.
[16] Parque Alvorada (Gazeta do Povo, 14/09/2008):
1961 – É inaugurado o Parque Alvorada. Na época, ele ficava nos fundos do Passeio Público, no centro da cidade. Entre os fundadores estava o ex-governador José Richa, na época estudante de Odontologia. 1980 – Parte dos brinquedos é levada ao Parque Barigüi. 1996 – O parque do centro da cidade é desativado. 2005 – Técnicos da Comissão de Segurança de Edificações e Imóveis (Cosedi) apontam problemas na manutenção dos brinquedos do parque. Por causa das falhas o local é interditado quatro vezes. Outubro de 2007 – O Alvorada é fechado por determinação da Justiça. A Urbanização de Curitiba S.A. (Urbs) revoga a permissão de ocupação, pedindo a reintegração de posse do terreno do Barigüi. 2008 – A interdição completa um ano no mês que vem. Os brinquedos continuam no parque, mas a ocupação do espaço segue sem definição.
[17] Esse cinema foi instalado no local em 1996. Antes havia funcionado na Rua Schiller e Praça Rui Barbosa. Atualmente o Cine Morgenau, está na Rua Conselheiro Laurindo e é o último cinema privado de rua de Curitiba. As instalações foram transformadas na casa de Show Cine no fim dos anos 1990. Essa casa encerrou suas atividades no início dos anos 2000. O prédio foi demolido em 2012.
[18] Ginásio de esportes pertencente ao Clube do Círculo Militar do Paraná atualmente usado só para esportes e eventos de instituições educacionais e religiosas.
[19] O zoológico ficou no P.P. até 1992. Foi transferido para o bairro do Boqueirão. Atualmente no P.P. funciona hospital de animais de pequeno porte e exibição de aves, macacos, cotias, jabutis, lagartos, peixes e cobras.
[20] O shopping fica a uma quadra do Passeio. Foi inaugurado em 1983 e oferta produtos para a classe média e classe média alta. Nos últimos 10 anos o shopping foi ampliado. Aumentou seu estacionamento com a compra de um terreno na quadra em frente à Rua Matheus Leme. E instalou uma passarela com esteira rolante sobre a rua. Também instalou cinemas (CINEMARK) na parte superior do prédio.
[21] Instalação de ciclovia sem sinalização adequada junto a pista de caminhada/corrida.
[22] Apesar de na mesma matéria afirmar que o local recebe diariamente cerca de mil visitantes.
[23] Trata-se de dois lagos com fundo de concreto. Um deles com oxigenação de uma fonte que funciona no antigo palco flutuante. Até 2008 tinha peixes e cágados. Desde a limpeza desse ano os animais foram retirados e não foram colocados de volta. O problema de sujeira é crônico. Foram realizadas várias limpezas desde então e a água continua com aspecto desagradável, verde, sem vida.
[24] Talvez isso denote preconceito, principalmente com as prostitutas. Além disso, em matéria publicada no dia 18/07/2013, na Gazeta do Povo, os locais públicos no centro de Curitiba com registro de ocorrência são as praças: Tiradentes, Santos Andrade, General Osório e Eufrásio Correia. Esta última é a com maior índice de criminalidade, principalmente ligada ao tráfico de drogas.
[25] Caderno de Campo, 06/07/2013.
[26] Um roteiro com brincadeiras, teatros infantis e atividades educativas levou cerca de 40 crianças atendidas pela Fundação de Ação Social (FAS) e moradoras do Lar André Valério Corrêa ao Passeio Público neste sábado. (...) Cama elástica, teatro e brincadeiras diversas a partir das 9 horas. Nesse sábado, aconteceu mais uma edição e contou com o apoio da Regional Matriz da prefeitura, já em comemoração aos 320 anos da cidade. (Gazeta do Povo, 02/03/2013)
[27] Ele não precisou o tempo. Mas foi suficiente para se empolgar na conversa e fazer análise do P.P.
[28] São usuários de drogas (álcool principalmente) e/ou moradores de rua. Segundo o cabo entrevistado eles se recusam a sair do parque e também o atendimento da assistência social.
[29] Eles trabalham fixo no P.P. Também disse que está há alguns anos no local.
[30] Equipamentos instalados pela prefeitura para, preferencialmente, atividades físicas da terceira idade. Em frente a Rua Luiz Leão, ao lado da CEU.
[31] Não há barracas dessa iguaria no cotidiano do Passeio, nem nos fins de semana.
[32] Pipoqueiros há mais de 30 anos e o ex-lambe-lambe há mais de 50.




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